sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

lado A, lado B.

          Todo mundo gosta daquele meu lado divertido: que faz piada de tudo, de todos, e às vezes, faz graça com nada. Sou convidado para dar shows em casas noturnas, entreter os outros, deixar todos os clientes com um sorriso de orelha a orelha. Às vezes, me convidam para uma conversa sobre tudo. Me saio bem, apesar de me dar mal quando o assunto é política. Nas boates, não costumo ficar parado. Qualquer música é animada, e me faz querer levantar os bracinhos e cantar, mesmo sem saber ou conhecer a dita cuja. Todo mundo curte esse meu lado "sorrisinho", de gargalhada alta e piadas de humor negro, às vezes, de mau gosto mesmo. Mas, é só começar a falar de assuntos pessoais, e todo mundo se cala. Cada um conta a sua experiência, mas quando eu tento falar, me interrompem. Ninguém dá a mínima. Dizem: você não é a pessoa certa para esse tipo de assunto. Por que? Eu questiono. Eles se entreolham, e nada respondem. Viro meu rosto pro lado, e finjo que não é comigo. Não querem saber o que se passa, talvez meu problema seja grave demais. Quando tentam me aconselhar, indicam livros de auto-ajuda. Já li, já li, já li, já li. E esse? Já li também. E você ainda está assim?
Todo mundo gosta do meu lado A, mas quando eu tento virar o disco, eles voltam pra primeira faixa, e nunca deixam eu completar. Talvez eu tenha nascido para viver sendo uma metade, o completo é pesado demais para a sociedade conseguir gostar.

Um comentário:

Leonardo Quirino disse...

Mas todos nós somos feitos de várias metades diferentes. Todos. Sem exceção.
E há entre todos nós os momentos atônitos que todos em volta nos fazem vivenciar numa rodada de alguma coisa qualquer. Se há exclusão de expressão é porque a colegagem ou amizades sejam seletivas.
Por vezes eu também já estive envolto neste tipo de sensação em baladinhas, festinhas, churrascos, passeios, viagens, no almoço... sempre irá haver 'constragimentos' desse tipo.
Claro que com o passar do tempo eu aprendi a conviver com pessoas que limitam as minhas idéias e logo aperto o 'botão-do-vá-se-fuder' e está tudo bem mais uma vez.
Eu não me preocupo se as pessoas estão ou não se importanto com meu lado mais interessante... afinal só as mais interessantes dou permissão para viverem comigo algo duradouro e complemente esse meu outro lado.