segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Apartamento de um amigo.

Eram quase três da tarde, quando Martin recebeu um telefonema de... Flávio.

- Oi, é o Caio?
- Isso. Quem está falando?
- Aqui é o Flávio, conversamos ontem pelo bate-papo.
- Ah... estou por dentro. E aí, o que você manda?
- Não tá afim de vir aqui em casa? Estou sozinho no apartamento de um amigo, podemos conversas, beliscar algo.

[Uma pessoa sozinha em um apartamento com você. E vocês acham mesmo que a intenção era de beliscar e conversar?]

- Me passa o endereço.

Alguns minutos depois, Martin estacionou o carro próximo a onde o rapaz morava e avistou alguém abrindo a porta. Quando viu que o rapaz não era tão rapaz assim, se deu conta de que nem havia lhe perguntado a idade, ou qualquer coisa do tipo. Ainda assim, fazia tanto tempo que... acabou saindo do carro mesmo assim.

- Pode entrar.
- Obrigado.

Foram para a sala. Onde havia pouquíssimas coisas. Um notebook, onde ele ficou mostrando vídeos pornôs. Uma rede. Duas cadeiras e uma brancura enorme por todo o lugar. Não havia cor. Era de cegar os olhos.

- Você é bonito, disse ele.

[Martin pensou em dizer o mesmo, mas não consiguia mentir. O cara era interessante, mas não lhe agradava muito pessoas com aparência de velho...]

Fingiu ficar tímido, e agradeceu o elogio.

- Caio é mesmo o seu nome?
- Sim. E você se chama Flávio?
- Claro. Aliás, odeio que mintam. Já me enrolei com outros garotos, e a gente consegue perceber nos olhos da pessoa, quando ela tem má índole.
- Você consegue é?
- É fácil. Por exemplo, você aparenta ser uma pessoa de bom coração.
- É... eu sou...

Estava prestes a usar aquele homem como um objeto qualquer de desejo sexual. Satisfazer o que o corpo mandava e ir embora dali, o mais rápido possível. Mas, e daí? Era recíproco. Flávio o chamou para ir ao quarto, que lá ficariam mais à vontade. Corria tudo normal quando o homem do apartamento lhe sussurrou algo no ouvido.

- Posso fazer uma coisa com você?
- Que tipo de coisa?
.....
- Não.
- Por que?
- Eu não quero. Nunca fiz, e não tenho vontade de fazer...
- Mas você vai ser pago por isso.
- Você não falou disso quando conversamos, achei que seria só o...
- Básico?
- Isso que você quer que eu faça é mais que avançado pra mim.
- Besteira, você sempre vê isso em filmes pornô.
- Mas eu não sou um...
- Ator? E garoto de programa é o quê?
- Eu tenho que ir embora.
- Não.

Martin tentou sair da cama, mas foi impedido pela mão forte do outro em seu braço.

- Larga meu braço, se não eu vou te esmurrar até que seu cérebro espoque aqui no meio dessa cama.
- Você teria coragem?
- Não. Mas se você continuar me forçando a fazer o que eu não quero, você pode me testar pra ver...
- Vamos... só vai doer um pouco.

Ele colocou a mão na boca do garoto e tentou forçar, e forçar... Até que foi empurrado com as pernas para fora da cama.

- Seu filho da puta, por que você fez isso?
- Se você tocar outro dedo em mim, eu vou na polícia.
- E vai dizer o quê? Que estava se prostituindo e eu não quis te pagar? Por favor...
- Não sei, eu digo apenas que eu... sou de menor. Isso já bastaria. O que acha?
- Mas você disse que tinha vinte e dois anos.
- Eu disse. Te comprovei isso?

Ele avançou para cima do garoto e desferiu um murro no seu rosto. Com um pouco de sangue na boca, saiu do quarto e foi correndo para o banheiro.

- O que você está fazendo aí, meu filho?
- Vomitando, respondeu.

Ele se vestiu no banheiro e voltou até o quarto. Onde encontrou o homem rindo na cama.

- Vocês [garotos de programa] se acham muito espertos...
- Eu não sou garoto de programa. Seria minha primeira vez.
- Você tem jeito pra coisa, mas precisa aprender a fazer de tudo.
- Pode abrir a porta por favor?
- Você não vai contar nada né?
- Abre, se não vai ser pior.

Ele foi embora. Derramou algumas lágrimas enquanto dirigia. Aliás, nem sabia para onde estava indo. E nem porque havia feito aquilo. Mexeu no bolso traseiro, e encontrou vinte reais. Comprou curativo, remédios, e foi para casa cuidar do machucado.

Um comentário:

Noleo Vizziv disse...

Difícil... complicado até.

Quando decidimos entregar a nossa intimidade... tornar-se um sendo dois... tinha que ser perfeito. Tinha que ser eterno.

Mas porque nos entregamos tão fácil as atrocidades do prazer momentâneo? Porque tanta dor?

Trocar a razão pela emoção nos leva as lágrimas mais tarde. E daí... vem essa vida mais ou menos... com o prazer sendo liberado de forma mais ou menos... só que... eu creio... pelo menos eu creio... que é só até encontrarmos alguém para limpar esta parede de sangue... esse sofrimento inútil e tão vazio.

Mais juízo... mesmo que pareça impossível.
É o que precisamos... sempre.



Que bom que gostou da música... o Antony é difícil de ser compreendido... digerido então... hmm nem se fale. Amo o Antony e a arte sonora que ele faz... é tudo um capricho melancólico e inteiramente ligado ao sentimento dos outros... ele parece me ouvir e cantar pra mim! [ Tá... ]

Quanto ao anseio por terras nem tão distantes... isso de fato é o máximo!