sábado, 5 de setembro de 2009

trinta segundos para digerir.

Antigamente, uma dor era algo como o fim do mundo, a pior coisa que poderia acontecer, e a primeira vez que me deparei com este bicho de sete cabeças e apenas três letras, foi duro, àspero e assustador. Procurei ajuda com estranhos, nos livros, nas ruas, nos letreiros pela cidade, no olhar das pessoas que passavam por mim e me viam aparentemente tão bem, saudável e feliz, e não encontrei uma solução. Se eu não sabia o que fazer, então simplesmente não iria fazer nada. Continuei com a minha vida, meus estudos, minha rotina de sempre. Com o tempo a dor pareceu ficar chateada com a minha falta de preocupação com ela, e às vezes apertava, tentava me derrubar, me mostrava caminhos sem volta, escuros, fúnebres e vazios. Tentava me ligar à pessoas sujas, me fazia lembrar de um passado pesado, minhas costas doíam, doíam muito. A dor tem um poder enorme, mas é burra. Tão burra, que se livrar dela com o tempo, se torna algo fácil. Diversas vezes me deparei com precipícios, me arranhei em alguns espinhos, pisei em armadilhas dolorosas, e ainda assim começava a rir, alto, tão alto, que conseguia ensurdecer a dor. Ela, por sua vez, puta da vida, me deixava em paz. Eu gritava em alto e bom som: "Você não tem efeito sobre mim". Colocava três ou quatro músicas animadas, derramava alguns mililitros de lágrimas, e lembrava que essa era só a 45ª dor de várias que ainda estariam por vir. De fato, não é algo tão simples como estou expondo à vocês, passar por tanta coisa ruim pode trazer consequências, duradouras ou não. Poço é poço, e em cada um deles você morre um pouco. Eu procuro não deixar essas dores me esquartejarem por dentro, pelo contrário, o que ela corta, eu imediatamente, vou lá e refaço, aos olhos dos outros uma cirugira perfeita, mas só quem passa por tanta coisa assim, sabe que é uma cicatriz que fica para sempre, o que não quer dizer que não há um modo, um jeito de lidar com a bendita. Esqueça que ela existe, ou pelo menos, finja, ela é tonta, tonta demais, vai entender que você não liga e vai te deixar em paz. Ou se mate, e seja mais burro do que a dor, é você quem sabe o que vale a pena.

Um comentário:

Rodrigo disse...

Belo texto cara, vi seu post no forum da comunidade do Caio Fernando de Abreu e entrei no seu blog... você escreve bem, e posso dizer que sei exatamente dessas dores, dessas cicatrizes! Estou tentando superá-las, a meu modo... Abraços