domingo, 10 de outubro de 2010

Ele por ele mesmo.

          Ele vem vindo, fica quieto. Quem? Ele. Ah tá. (alguns segundos depois) Ele parecia um pouco apressado hoje. Verdade. Deve ser o horário, já passa das sete horas. Que horas começa a aula dele? Sete horas. Entendi. Será que ele aparece na hora do intervalo? Quem sabe? Ninguém nunca sabe. Às vezes, ele só vai no banheiro, finge se olhar no espelho, entra em alguma salinha privada, liga a descarga, finge que desce algo, permanece lá parado por alguns segundos, volta, lava as mãos, se olha mais uma vez no espelho, pensa: "não tem jeito" e volta pra sala de aula. Ele deveria saber que tem jeito. Por que você não conta? Sei lá, ele parece ser tão... malvado. Ele poderia acertar uma pedra em você, caso você ousasse cumprimentá-lo. Por isso não me atrevo. Por outro lado, me excita esse lado dele, esse ar de "fodam-se, quem são vocês mesmo?", provavelmente, fruto de amores mal resolvidos. Me parece mais com fruto de amor nenhum. Você lembra daquele dia que ele sentou na fonte e ficou escrevendo? Lembro, ele estava com um semblante bem pior do que o de costume. Ele pensava, escrevia, olhava para os lados, checava se não vinha ninguém ao seu encontro, e depois continuava a escrever. Quase cheguei até ele neste dia. Por que você não foi mesmo? Você está louca? Provavelmente ele me arremessaria na fonte. Você é um pouco exagerado, ele não deve ser tão malvado assim, é só o fruto, lembra? Eu sei, mas ainda tenho um pouco de receio, ele gosta de pessoas surpreendentes, e eu tenho medo de parecer meio monótono. Você não vai precisar de bazuca, duas pistolas e um canivete para surpreendê-lo. Não? Não... você só precisa convidá-lo a lugares exóticos, aparecer na hora errada sem dizer nada, furar um compromisso e ligar cinco minutos depois dizendo que os planos mudaram, essas coisas. Ele é interessante, mas anda de forma comum. Ele se faz de comum, ele só tá esperando alguém chegar e desvendar a porra do mistério, que nem existe, é tudo fantasia, pique-esconde cibernético. Olha lá ele. E não é que ele desceu pro intervalo? Vai lá, fala com ele. Agora? Claro. Como tá meu cabelo? E a minha roupa? Como faço pra chegar nele sem parecer um intruso? Quantas perguntas, é muito simples, só o surpreenda. Anda, vai!

- João? (diz ele meio afoito)
- Sim. (cara de surpresa)
- É... gosta de... pistache?
- Gosto de quê?
- Pistache.
- Nunca provei, é bom?
- É péssimo. Vem comigo, que eu vou te contar uma história.
- Onde?
- Vem comigo.

E saiu puxando ele pela mão. Alguns minutos depois, estacionou o carro na estrada, e o chamou para subir no capô do carro.

- É bonito. (abriu um sorriso) Mas, da onde nos conhecemos mesmo?
- Eu venho te observando a algum tempo.
- É?
- Sim, desde o dia que você passou por mim, bateu no meu cotovelo com a beira do caderno, e seguiu adiante. Vou te contar tudinho.

          Depois desse dia, eu contei pra uma amiga que estava apaixonado, e que tinha encontrado o homem da minha vida, assim mesmo, sem exagerar. Sabia porque não havia incerteza, não havia um só momento que eu me perguntava se era ou não verdade, antes mesmo de saber se daria certo, eu sabia que daria em algo. Hoje você vinha chegando um pouco apressado e comentei com ela...

Um comentário:

Jeronymo Artur disse...

não foi difícil sentir-se na pele. acho que dizer isso é suficiente.